COLEÇÃO

BIBLIOTECA

2005
Isnard Martins

 

7


Análise em Bases de Informações Criminais

Isnard Martins - Prof Dr Engenharia Industrial - pesquisa
                para Tese de Doutorado 2008
               
 

1 - Bases criminais informatizadas

Sistemas criminais processados em tempo-real propiciam consultas eficientes e atualizadas sobre a situação das incidências urbanas, constituindo-se ferramentas de grande utilidade no apoio ao planejamento e distribuição dos recursos policiais. O fator limitante decorre da defasagem para contabilização dos delitos,  cujos prazos são razoavelmente lentos em relação ao fator tempo/espaço, considerado-se ainda a aleatoriedade de ocorrência destes delitos (Jonathan, 2003).

 Em substituição aos antigos e trabalhosos arquivos manuais, a informação automatizada é inserida no computador, tornando-se disponível para recuperação instantânea quando necessário. Essa abordagem economiza não apenas o tempo de alimentação, mas também economiza o tempo de extração, análise e pesquisa, permitindo recuperar a informação desejada adequadamente formatadas (Gottlieb, 1994).

2 - Método de Análise Manual versus Informatizado

Segundo Martins (2009), os históricos policiais (boletins de ocorrência) são muito ricos em informações das quais são extraídas redes de relacionamento e fornecem evidências preciosas em investigações presentes e futuras. Mas, muitas vezes, constituem bases de informações desestruturadas, sem conexões aparentes entre fatos, objetos ou pessoas. Pesquisas mais profundas exigem tempo e pessoal qualificado para uma análise histórica útil e conclusiva.

As Redes Criminais são complexas de serem preparadas, exigindo tempo crítico dos analistas da polícia. Por esta razão, apenas algumas poucas redes são desenvolvidas, sempre voltadas para investigações de crimes de maior clamor público (ou onde possa ser justificado maior empenho policial). São Empregadas técnicas de pesquisa operacional para análise de associações existentes em redes criminais aplicando-se algoritmos de Caminho mínimo para análise das mais fortes conexões identificadas em redes criminais automatizadas. O processamento contempla a extração automática de entidades úteis e relevantes das ocorrências policiais, aplicando data mining, redes neurais e técnicas de extração “Entidades Nominais”, tais como nomes de pessoas, narcóticos ou veículos identificados. O valor de uma associação entre um par de entidades é computado pela freqüência, segundo a qual estas aparecem relacionadas em uma mesma ocorrência.
O sucesso da construção automática de redes criminais depende de técnicas eficientes para extração e identificação de entidades úteis nos boletins de ocorrência ou informes policiais.

A extração automática de conhecimentos em grandes bases de dados textuais assume importância relevante nos mapas de investigação criminal. Estas bases podem revelar fatos ou relacionamentos ocultos, difíceis de serem extraídos ou manipulados por métodos convencionais (Martins, 2009).

Segundo Martins (2009), diversas técnicas de análise têm sido aplicadas em análise de redes criminais com objetivo da descoberta de vínculos entre membros de uma quadrilha ou descoberta de conexões entre quadrilhas. A identificação dos participantes de uma quadrilha pode revelar padrões comuns de procedimento e fornecer a cronologia das associações criminosas. A análise de vínculos entre quadrilhas pode revelar tanto a existência como a extensão de uma rede criminal, possibilitando, muitas vezes, identificar os seus limites geográficas e tipicidade de suas atividades, como a descoberta de participantes de quadrilhas organizadas do narcotráfico e suas possíveis ramificações internacionais.

Os criminosos praticam crimes associados através de interesses comuns e recompensas esperadas como produto dos delitos cometidos. O crime organizado como terrorismo, narcóticos, seqüestros e roubo a bancos geralmente envolvem múltiplos participantes, conectados através de diversos tipos de relacionamentos. Aprender sobre estes relacionamentos é fundamental para o trabalho de investigação e elucidação de delitos caracterizados por dinâmicas criminais praticadas em cenários complexos (Martins, 2009).

O emprego do método denominado análise de conexões (link analysis) pode ajudar na descoberta de vínculos existentes em bases de informações policiais, extraindo redes conectadas por objetivos comuns e atividades associadas para cometimento de delitos criminais (Xu & Chen, 2004).

Algoritmos de caminho mínimo servem de base para analisar as aproximações entre participantes de um cenário investigado, identificar cumplicidades e estabelecer vínculos fortes entre os atores de uma rede criminal. Considerando o volume crescente de crimes investigados pela polícia, métodos sofisticados para análise de mapas de inteligência, como algoritmos de caminho mínimo, podem tornar-se ineficientes, se desenvolvidos por métodos manuais. Por outro lado, face ao volume crescente de crimes e o tempo necessário para análise particular de cada ocorrência, torna-se necessário minimizar o tempo de investigação para extração de conhecimento e análise dos vínculos identificados (Martins, 2009).

Tratando-se de delitos capitais como seqüestros, homicídios e crimes hediondos, o tempo de investigação torna-se crítico para o completo desenvolvimento de mapas criminais que  envolvem denúncias, múltiplos atores, lugares, instrumentos , cúmplices e vítimas  (Martins, 2009).

Ferramentas voltadas para preparação automática de redes criminais estão disponíveis e estão sendo utilizadas para investigações, especialmente nos EEUU. Entretanto um grande volume de conceitos inúteis à investigação são extraídos de forma automática dos textos desestruturados durante a construção da rede. Dificultam a identificação daqueles conceitos realmente essenciais à investigação e identificação das mais fortes conexões entre os conceitos nos mapas pesquisados. Técnicas voltadas para obter melhor eficiência e maior efetividade na análise das conexões existentes em redes criminais são necessárias para utilização destas ferramentas no combate ao crime organizado (Martins, 2009).

Segundo Gottlieb (1994), em modo manual é possível extrair informações de assaltos registrando-os em  uma planilha de registros de assaltos. Este simples instrumento possibilitará rastrear os progressos de suas investigações. Uma vez registrados na planilha, todas as informações relativas aos suspeitos destes delitos poderão posteriormente ser usadas para criar um arquivo de assaltantes conhecidos.

O analista criminal em um sistema informatizado não precisa criar e manter uma planilha para rastrear uma atividade criminosa. Dependendo dos recursos de programação disponíveis, o sistema preparará essas informações de forma automática. Tais recursos automatizados baseiam-se nos registros preliminares de ocorrências

Os sistemas informatizados simplificam o processo de criação de arquivos e informações para análise. Uma vez registrado nos arquivos criminais de delitos e ocorrências policiais,  automaticamente o sistema classificará o suspeito como assaltante.  

Em modo manual poderá desenvolvido um arquivos de delinqüentes conhecidos, seus respectivos “modus operandi”[1], veículos e outros objetos de caráter descritivo para cada tipo de crime.  O “Modus Operandi”, também conhecido como“Dinâmica” constitui-se como entidade relevante na formação de conexões e caminhos úteis

Desse modo, terão diversos arquivos de delinqüentes conhecidos, diversos arquivos de “modus operandi”, e assim por diante. Em contraste, o sistema informatizado pode ter um único e amplo arquivo de delinqüentes conhecidos, um amplo arquivo de veículos, etc. Tais arquivos contêm registros de dados de todos os crimes e, portanto, não são específicos para um só crime. Com a informatização, o analista não necessita de arquivos específicos para “assaltos” ou “roubos a residências”. Para encontrar determinado suspeito de assalto, por exemplo, o analista só precisa pesquisar no único e amplo arquivo de delinqüentes conhecidos do computador. Este procura automaticamente nos arquivos a(s) pessoa(s) que se ajuste(m) aos critérios de pesquisa do analista (neste caso, suspeitos de assalto) e entrega uma lista de delinqüentes previamente investigados por esse delito. 

Os sistemas informatizados simplificam e aceleram de forma significativa a organização e a recuperação de dados. Os analistas ocupados com procedimentos manuais não serão capazes de desenvolver as suas investigações com tanta rapidez como aqueles verificados em sistemas informatizados e,  certamente, não poderão concentrar-se em um número idêntico de crimes.

3 - Planejamento de um Arquivo para Análise

Segundo Gottlieb (1994), um considerável tempo deve ser dedicado ao planejamento da base criminal, de modo assegurar que o processo organizacional dos dados não se torne em um fim em si mesmo. Alguns analistas mantêm-se ocupados com registros de dados em planilhas e arquivos, em detrimento às atividades de analise e investigação, frustrando assim metas existentes de elucidação de autorias e redução da criminalidade. Ao identificar quais dados deverão integrar as estruturas das bases de dados e a forma segundo a qual deverão estar organizados e relacionados, para desenvolvimento da próxima etapa deverão ser consideradas as premissas seguintes:

·              Identificação de tipos de crimes selecionados como objeto de análise

·              Os crimes selecionados devem apresentar suficiente volume de ocorrências que possam produzir padrões reconhecíveis como atividades criminosas e possam apoiar a implementação de planos de patrulhamento dirigido ou de ação tática 

·              Existência de tempo necessário e pessoal qualificado na unidade de análise criminal para implantação e manutenção dos arquivos projetados para o sistema de análise.

·              Existência de dados suficientemente específicos para serem categorizados (isto é, se os suspeitos podem ser descritos em termos de faixas etárias definidas, em oposição a generalidades como “jovem” ou “velho”).

·              O processo organizacional das informações e desenvolvimento dos arquivos deve ser projetado para oferecer facilidades nas rotinas de recuperação das informações.

·              Os arquivos devem ser desenvolvidos de modo permitir relações entre pessoas, veículos e eventos. 

O antigo axioma sobre computadores – “lixo entra, lixo sai” – também é apropriadamente aplicado na função de análise criminal. É essencial que sejam realizadas a coleta, organização e armazenamento de informações de forma precisa e confiável, permitindo a qualquer tempo, a pronta recuperação das informações pelos analistas. Estas exigências são fundamentais para obtenção de uma análise criminal coerente e satisfatória (Martins, 2009).

 Bibliografia

Gottlieb S, Arenberg S., & Singh R Criminal Intelligence Analysis/. Crime Analysis: From First Report To Final Arrest.   Alpha Group - 1994

Jonathan J. Corcoran, Ian D. Wilson, J. Andrew Ware. Predicting the geo-temporal variations of crime and disorder. School of Computing, University of Glamorgan, Pontypridd, Mid Glamorgan, CF37 1DL, UK, 2003

Martins Isnard. Exame de Qualificação de Doutorado. PUC-Rio, Departamento de Engenharia Industrial, 2009

Martins, Isnard. Descoberta de Conhecimento em Históricos Criminais: Algoritmos e Sistemas. Tese de Doutorado PUC-Rio Dep Engenharia Industrial, 2009

XU Jennifer, Chen H.Fighting organized crimes: using shortest-path algorithms to identify associations in criminal networks . Decision Support System 38 (2004) 473-487

Todos os direitos reservados para o autor, Martins I, abril de 2005
Reprodução permitida, citando a fonte e o autor nas referências e créditos bibliográficos.

Retornar


Biblioteca Cultura
© Reprodução Reservada
 

..\index.htm