Isnard
Martins - Prof Dr Engenharia Industrial - Universidade Estácio de Sá
Educação à Distância
A investigação da
cena do crime é o ponto de encontro entre a ciência, a lógica e a lei.(Julia
Layton)
Introdução
Este trabalho desenvolvido por Isnard
Martins (2008) utiliza referências conceituais apresentadas no trabalho
de Jonathan Strickland (How Virtual Crime
Scenes Work, 2007) e outros, onde são pesquisados recursos
alternativos para documentação pericial da cena de um crime. O presente
trabalho está segmentado em duas partes: foto-pericial e modelagem
gráfica.
Segundo Stumvoll et al (1995) o trabalho
pericial, inicia com o levantamento do local crime onde estão presentes
os vestígios materiais do fato. A conclusão do laudo pericial
fundamenta, na maioria das vezes, a decisão judicial. A perícia é a
lanterna que ilumina o caminho do juiz que, por não a ter quanto a um
determinado fato, está na escuridão (Stumvoll et al,1995).
No princípio do século XIX, cabia à
medicina legal, além dos exames de integridade física do corpo humano,
toda a pesquisa, busca e demonstração de outros elementos relacionados
com a materialidade do crime e demais evidências extrínsecas ao corpo
humano. Com o advento de novos conhecimentos e desenvolvimentos das
áreas técnicas, como física, química, biologia, matemática, toxicologia,
etc., tornou-se necessária a criação de uma nova base científica para a
pesquisa, análise, interpretação dos vestígios materiais encontrados em
locais de crime, tornando-se assim, fonte imperiosa de apoio à polícia e
à justiça .
Strickland (2010) cita que
investigadores e especialistas
forenses enfrentam condições desafiadoras ao examinar sem prejuízo uma
cena de crime, onde o máximo de informações devem ser reunidas no menor
tempo possível.
Geralmente,
o local de um crime é preservado apenas por um curto período de tempo,
particularmente se localizada em uma área pública.
O perito
documenta
cuidadosamente a cena, tirando fotografias e desenhando esboços em um
segundo reconhecimento e, as vezes, incluindo também uma gravação em
vídeo. O local é documentado como um todo, assim como qualquer coisa que
seja identificada como uma evidência (Layton, 2010).
Segundo Stumvoll et al (1995), o
levantamento fotográfico do local da ocorrência deve apresentar:
·
Fotos gerais
-
compreendem as fotos dos vestígios periciais
relacionados aos aspectos adjacentes. Lyton (2010)
cita
que fotografias de visão geral representam o panorama mais amplo de todo
o local. Se a cena do crime é dentro de casa, isto inclui a visão de
todos os quartos (não somente do quarto onde o crime ocorreu), com
fotografias tiradas de cada canto e, se houver uma grua no local, de um
ponto de vista superior, tomadas aéreas da
parte externa do prédio onde o crime aconteceu, incluindo fotos de todas
as entradas e saídas; vista do prédio mostrando sua relação com as
construções adjacentes e fotos de quaisquer espectadores na cena.
·
Fotos de
Detalhes -
objetivam esclarecer e comprovar certas
características e peculiaridades à situação ou posição de determinados
vestígios, oferecendo subsídios à informação de dados métricos
relativos, calibragem e tamanho, servindo de elemento comprobatório como
perícias judiciais.
·
Fotos
panorâmicas,
que são de excelente valia, por fornecerem
idéia relativa da situação da área onde ocorreu o fato.
Segundo Maia Neto (2008) o Código de
Processo Civil trata a fotografia em dois capítulos principais, um
referente à prova documental e outro referente à prova pericial no que
tange à inspeção judicial (considerando ainda um terceiro, que seria uma
derivação do segundo), como segue.
Da Prova
Documental
Art. 385. A cópia de documento particular
tem o mesmo valor probante que o original, cabendo ao escrivão,
intimadas as partes, proceder à conferência e certificar a conformidade
entre a cópia e o original.
§ 1o - Quando se tratar de fotografia,
esta terá de ser acompanhada do respectivo negativo.
§ 2o - Se a prova for uma fotografia
publicada em jornal, exigir-se-ão o original e o negativo.
Da Prova
Pericial
Art. 429. Para o desempenho de sua
função, podem o perito e os assistentes técnicos utilizar-se de todos os
meios necessários, ouvindo testemunhas, obtendo informações, solicitando
documentos que estejam em poder de parte ou em repartições públicas, bem
como instruir o laudo com plantas, desenhos, fotografias e outras
quaisquer peças.
Da Inspeção
Judicial
Art. 443. Concluída a diligência, o juiz
mandará lavrar auto circunstanciado, mencionando nele tudo quanto for
útil ao julgamento da causa. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de
1º.10.1973)
Parágrafo único. O auto poderá ser
instruído com desenho, gráfico ou fotografia. (Redação dada pela Lei nº
5.925, de 1º.10.1973)
Maia Neto cita em seu estudo (2008)
existir a possibilidade de questionamento sobre a veracidade de uma foto
digital, uma vez que o trabalho pericial não goza de fé pública, mas sim
da fé de ofício, possuindo presunção da verdade, carecendo portanto, dos
necessários mecanismos de garantia,
Técnicas para
Captura da Cena em ambiente 3D
Teixeira (2008) cita que um
levantamento topográfico deve resultar na integração e na representação
de todos os vestígios existentes que possam perpetuar a cena de um
crime. A fotogrametria está sendo empregada para processar dimensões de
determinados objetos e pessoas presentes em fotografias, podendo
extrair diretamente da foto suas distâncias relativas. Segundo Teixeira
(2008). a fotografia é uma representação em perspectiva, incorrendo em
erro distâncias diretamente mensuradas sobre a imagem pelo observador. A
fotogrametria é pouco utilizada, e de difícil emprego em nossa
realidade, mas na ausência de outro recurso, esta poderá ser a única
ferramenta disponível para efetuar medidas entre os objetos da cena
fotografada, quase impossíveis de serem obtidas posteriormente no local
da ocorrência.
Segundo Isnard (2008), a
foto
esférica
panorâmica
é capaz de, em uma única "foto
integrada",
apresentar ao perito, ao analista ou ao
corpo judicial o cruzamento e a colisão, ou ainda, a cena completa de um
homicídio. A foto esférica imersiva captura os detalhes presentes na
ocorrência através de seu registro panorâmico, recurso de grande
utilidade para compreensão da dinâmica do crime ou do acidente, podendo
substituir eficientemente as fotos panorâmicas complementares que possam
documentar uma ocorrência pericial.
São diversas as tecnologias existentes.
As fotos esféricas 3D impressionam todas as vezes que são consultadas ou
apreciadas. Registros fotográficos constituem a base de estudos e
conclusões na maioria dos laudos periciais de crimes, de acidentes
diversos e sinistros. Independentemente do volume de fotos extraídas do
ambiente periciado, a sensação do efeito espacial permanecerá ausente .
A tecnologia imersiva repõe a dimensão ausente nas imagens periciais
panorâmicas, permitindo ao analista a sensação de presença na cena
original, reconstituindo o cenário com precisão e riqueza de detalhes
(Isnard,2008),
A desvantagem óbvia deste recurso, além
dos custos, é a necessidade do suporte de informática para obtenção dos
efeitos de imersão oferecidos pelas fotos 3D, necessário para obtenção
de sua melhor qualidade técnica e benefícios inerentes (Isnard,2008),
As visões apresentadas no exemplo
pertencem ao mesmo cenário. A Primeira apresenta uma visão panorâmica
central do Coliseu em Roma, na segunda cena observa-se o solo e na
terceira observamos a face oposta à primeira visão. O controle de
navegação na cena esférica é possibilitada pelo mouse que permite
“movimentar” a visão da foto 360º. A marca no solo, apresentada na foto
central, representa o único espaço não captado no ambiente esférico -
trata-se do ponto de apoio da câmera no solo (Isnard,2008),

Uma
cena de crime pode ser digitalizada em minutos em vez de horas, o que
resulta em dados 3D de alta qualidade e que podem ser revistos por
peritos por longo período de tempo. Tão logo uma cena de crime é
apresentada a uma equipa de digitalização, toda a área pode ser
capturada na forma de dados (nuvens de pontos). O posicionamento de
objetos e superfícies dentro da imagem digitalizada pode ser visto num
ambiente 3D, dando ao usuário uma perspectiva não alcançada por métodos
convencionais como, por exemplo aquela apresentada em uma fotografia
digital convencional
(Isnard,2008)
.
A
partir do ponto de vista 3D, trajetórias dimensionais de projéteis ou
padrões de manchas de sangue podem ser calculados, e por meio de
diversas linhas de visão podem ser pesquisados. Depois de analisados, as
perspectivas particulares podem ser avaliadas, permitindo uma percepção
mais precisa da seqüência dos eventos que integram uma cena do crime (Antares,
2009)
Como Funciona
uma Foto Imersão 3D
Apesar das eventuais
disputas judiciais sobre propriedades intelectuais da tecnologia, o
princípio utilizado pelos fabricantes é muito semelhante: duas fotos
semi esféricas e sincronizadas são extraídas do mesmo ambiente, cada
uma, oposta 180 0 à outra. As fotos são integradas via
software, fornecendo a sensação esférica em uma tela de computador.
A navegação
(imersão) na foto é realizada por mecanismos fornecidos através de
plug-in para o navegador, que sensibiliza movimentos em três dimensões
sobre a foto em 360o, inclusive em visões acima e abaixo da
imagem, comandadas pelo deslocamento simples do mouse do usuário
(Isnard,2008)
O
sistema exige a aquisição de licenças específicas para cada foto
extraída ou para o uso de fotos liberadas em mídias abertas, como
Internet. Portanto, não é um sistema de baixo custo de produção, como a
utilização de fotos digitais. Ainda assim, o sistema de foto imersão
apresenta vantagens singulares para documentação de cenários policias
mais complexos, como acidentes diversos e crimes de maior repercussão,
que possam incorporar exigências maiores na fase documental ou na busca
por vestígios e provas periciais mais sofisticadas
(Isnard,2008).
A Solução CSVT - Crime Scene Virtual Tour
Segundo Isnard (2008) a Tecnologia
baseada em realidade virtual, integra recursos de imersão na
reconstituição de cenas de crimes. Similar ao Sistema IPIX, CSVT captura
a cena através de duas fotos opostas tomadas com uma câmera equipada com
uma lente “Olho-de-Peixe”. As fotos são integradas através de software,
permitindo processar medidas entre os objetos da cena. Esta solução não
possui um custo associado às fotos tomadas individualmente, sendo por
esta razão mais adequadas e menos onerosas ao propósito pericial.
Operação do CSVT
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1 - Equipamentos necessários (Câmera, Lente
“FishEye” + Rotor + Tripé. A cena é capturada através de duas
fotos semi-esféricas opostas (foto original - CSVT, 2010) |
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2- As fotos são tratadas por um software especial
que reconstrói a cena do crime, oferecendo um ambiente visual
imersivo, cujos objetos presente na cena capturada podem ter as
suas distâncias relativas mensuráveis (fotos original - CSVT,
2010) |
Aplicação da Foto Modelagem
Barilli et al (2009), desenvolveram um estudo que
enfatiza a aplicação de técnicas de foto modelagem 3D como forma de
contribuição para a eficácia do trabalho pericial em sinistros
envolvendo acidentes de trânsito. A foto modelagem é um processo
computadorizado que, a partir de fotografias e utilizando a
Fotogrametria (extração de medidas em fotografias), é capaz de gerar um
modelo tridimensional texturizado.
Berilli et al (2009) citam que no campo pericial a foto modelagem
torna-se uma ferramenta de muita utilidade, Uma vez realizadas as
fotografias da cena do sinistro e sendo respeitadas as normas
necessárias para uma boa extração de um modelo 3D, poderá ser dispensada
a preservação da cena. O perito terá como material de análise, além das
próprias fotografias, a possibilidade de reconstrução do cenário
tridimensional, permitindo-lhe inclusive a imersão, ou seja, penetrar na
cena e com ela interagir, através de medições e extração de dados.
Em
seu estudo, Berilli et al (2009) citam que todas as informações
necessárias para documentação da cena deverão estar presentes nas
imagens, portanto a realização destas fotos deverá obedecer a rígidos
critérios. As fotografias a serem utilizadas em um processo de foto
modelagem devem ser realizadas mantendo-se constante a distância focal
da objetiva, o que significa que, se a câmera utilizada dispõe de uma
distância focal variável (zoom), deverá ser escolhida uma única medida
de distância para todo o conjunto de fotos.
Esta condição tornar-se-á importante para o momento em que o programa de
foto modelagem estiver extraindo informações das fotografias tratadas. O
programa deverá também contemplar a possibilidade de medições e análises
mais complexas.
Estão presentemente no mercado ferramentas que permitem a medição
sub-pixel, ou seja, o ponto de medição poderá estar situado dentro dos
limites de um pixel, não podendo este ser um limitador (unidade mínima).
Na prática estas ferramentas podem extrair medidas de imagens de
qualidade inferior, devido a sua baixa resolução, aquém dos limites
desejáveis mínimos para tratamento
(Isnard,2008).
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Uma vez
extraído o modelo tridimensional texturizado, é possível
manipulá-lo, visualizando-o de diversos ângulos diferentes,
retirando medidas e informações, com auxílio do próprio programa
de foto modelagem ou através de um programa de visualização de
modelos 3D |
Fotos
Panorâmicas
Muito recentemente uma nova tecnologia para
fotos panorâmicas foi lançada através de fabricantes como a Sony ©. Pelo
baixo custo, este recurso encontra-se ao alcance de qualquer usuário de
padrão mediano disposto a adquiri-lo por valores relativamente
inferiores aos sistemas tridimensionais sofisticados, estando acessível
em lojas foto-cine especializadas, inclusive em revendedores no Brasil.
As fotos podem oferecer uma
visão aproximada de 180º, manipuladas sem uso de nenhum instrumento
especial ou apoio para giro da imagem, podendo ser registradas
manualmente, como o exemplo abaixo apresentado. Como desvantagem, este
sistema simplificado não oferece a visão esférica propiciada pelas fotos
que simulam um ambiente 3-D.
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Exemplo de uma
foto registrada com uso de uma câmera não profissional Sony H55
(Isnard Martins, 2010) |
Bibliografia
Antares Tecnologia
- Desenvolvimento de Software.
Portugal, 2009
Barilli
Christina ; Braga Isis, Braga Luiz Antônio;
Faragó Paula ; Cunha Gerson.
Aplicação eTecnicas deFotomodelagem em Acidentes de Transito.
Escola Nacional de Saúde Pública / Fiocruz ,
Escola de Belas Artes / UFRJ , Escola de Belas Artes / UFRJ , Programa
de Engenharia Civil / COPPE / UFRJ , Programa de Engenharia Civil /
COPPE / UFRJ disponível
http://br.monografias.com/trabalhos/aplicacao-tecnicas-fotomodelagem-acidentes-transito/aplicacao-tecnicas-fotomodelagem-acidentes-transito2.shtml
CSVT-
Crime Scene VT -
http://www.crime-scene-vr.com/#
Isnard,
Martins.
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Consulta em 2010,
disponível em
http://www.citynet.com.br/retratofalado/sfero.htm
Maia Neto
F , Uso
de Fotos Digitais. Grupo Perícias e
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http://www.ibapebahia.org.br/IbapeBahia/NewsDisplay.aspx?id=116
Stumvoll
Vitor, Quintela Vitor, Dorea Eduardo.
Criminalística.
Editora Sagra Luzzato. Porto Alegre, 1999
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Consulta em http://www.ipix.com/index.html;
http://www.bbc.co.uk/cbbc/help/ipix.shtml;
http://www.ipix.com/products_plugin.html
Layton
Julia - Como funcionam as
investigações da cena do crime -
HowStuffWorks Brasil - consulta em 2010
http://pessoas.hsw.uol.com.br/investigacoes-da-cena-do-crime.htm
VRstitcher Fisheye Pro
Full-360, spherical panoramas from digital SLR and Nikon Coolpix cameras
Strickland
Jonathan - Cenas Virtuais do Crime - HowStuffWorks Brasil
- consulta em 2010
http://eletronicos.hsw.uol.com.br/cena-virtual-crime.htm
Teixeira
Cleber Muller. Desenho para a Criminalística : Croquis, Esquemas,
Plantas Softwares de representação de local de morte violenta -
XX Congresso Nacional de Criminalística III Congresso Internacional de
Perícia Criminal, João Pessoa, 2008
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