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2010-1
Isnard Martins

 

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Históricos Criminais - Ergonomia de Conteúdo

Isnard Martins - Prof Dr Engenharia Industrial - 2008

Desenvolvemos conceitos subjetivos da probabilidade que permeiam e orientam nossos pensamentos e ações Johon Cohem - Dept Psicologia Universidade de Manchester

 

Este ensaio foi originalmente desenvolvido por Isnard (2009), baseado em estudos de Ergonomia de Conteúdo (Cohem, 1973), para o SIMPEP, em 2009. O estudo oferece uma avaliação do grau de confiança que, de direito, podemos ter a respeito da verdade de certa proposição ou da ocorrência de determinados acontecimentos.

Documentos criminais representam a base para elucidação de crimes, identificação de autorias e apoio ao planejamento policial. Muitas das informações introduzidas em um documento criminal, dependem do julgamento e avaliações subjetivas de eventos por parte do policial relator. Informações podem ainda ter origem em entrevistas e depoimentos fornecidos por testemunhas e entrevistados envolvidos na coleta de depoimentos. Para que estas informações sejam consideradas como relatos de utilidade, precisam apresentar as seguintes características:     

·              atualização

·              credibilidade

·              precisão

·              válidade

A precisão refere-se à acuracidade das informações registradas e implica que estejam apresentadas em um padrão que possa ser compreendido pelos profissionais encarregados de seu tratamento.

A diversificação na forma de descrever um evento, bem como na sua interpretação, depende de conceitos prévios, vivências e cultura dos interlocutores envolvidos (Gottlieb, 1998)

Interpretação subjetiva da Informação

Retórica não é um conceito de quantificação. O reconhecimento do preconceito é uma avaliação qualitativa. A evidência que deveria ser impessoal e neutra poderá ser usada para apoiar um argumento. O uso da evidência ajuda estabelecer um contexto na qual as ações do indivíduo referenciado seriam claramente possíveis.

Não devem ser ignoradas as circunstâncias específicas que envolvem um  evento - evidenciando-se  o momento “anterior e o “posterior. Um texto descritivo pode induzir seu leitor à conclusões particulares, desviando o foco de sua atenção para longe de hipóteses importantes. É particularmente significativo como um erro cometido pelo relator obscurece as razões subjacentes às relações entre causa e efeito, dificultando para os analistas a identificação dos principais fatores casuais relacionados com os eventos criminais (Reason, 1996).

Ênfase

Um texto impresso pode prover recursos retóricos relacionados com a forma gráfica de sua apresentação, que podem influenciar o leitor, quanto a importância do argumento e sua conseqüente interpretação.

Por exemplo "Esta anomalia estava monitorada, e os problemas foram corrigidos”. O uso do Negrito Itálico como ênfase atrairá naturalmente a atenção do leitor ao descritivo desejado peso uso do recurso. Esta técnica retórica conduz o leitor e enfatiza que o problema foi solucionado. O relator, usando Itálico,  Negrito ou ambos,  poderá enfatizar pontos de importância, alertando ou influenciando o leitor para certos argumentos. (Reason, 1996)..

Interpretação

Os eventos podem ser descritos de diversas formas, que são interpretados de acordo com a experiência e visão do relator.

A descrição de um indivíduo que use o corte do seu cabelo no estilo “militar” pode considerar como “cabeludo” um outro indivíduo  que use o cabelo volumoso, mas cujo conceito de cabeludo, por sua vez, aponta para o indivíduo apresentando seus cabelos longos, situados na altura dos ombros (Isnard, 2010).

Conceito relativo do indivíduo  “cabeludo” depende da interpretação de usos e costumes ambientais   Figuras - PhotoComposer Plus - Retrato Falado Brasileiro - Isnard, 2003

Muito embora todos saibamos a faixa etária a que se refere o termo “adolescente”, talvez não tenhamos a mesma certeza sobre as idades de pessoas descritas como “jovens”, “crianças”, “de meia idade”, “idosas” ou “velhas”. Uma pessoa de 30 anos pode ser considerada “velha” por outra de 15 anos. Indivíduos que já ultrapassaram esta faixa etária podem não compartilhar desta mesma percepção.

O mesmo indivíduo apresentado em dois momentos no tempo ( 30 e 60 anos ) poderá ser considerado relativamente novo ou relativamente velho através da observação de diferentes testemunhas.   Figuras - Singular Inversion - Isnard, 2003

Avaliação Subjetiva - Incerteza

Segundo Cohen (1973), a Incerteza encontra-se tão intimamente arraigada em nossas vidas que domina a linguagem. Em nosso cotidiano empregamos grande parte de palavras como “provavelmente”, “muitos”, “logo”, “grande”, “pequeno”. Como podemos então interpretar a palavra “provavelmente”? Na falta de padrões para estimar probabilidades , resta-nos a probabilidade particular do interlocutor.

A imprecisão verbal permite formular julgamentos quando é impossível qualquer asserção quantitativa precisa.

Segundo Cohen (1973), a linguagem da incerteza tem três categorias principais:

·              Palavras que denotam uma probabilidade subjetiva e que são quantificáveis potencialmente: provavelmente, possivelmente, seguramente -

·              Palavras que são quantificáveis, mas encerram em seu significado um elemento de incerteza, caracterizado por uma quantidade imprecisa: muitos, freqüentemente, logo

·              Palavras que não são redutíveis a qualquer número aceitável, que dependem   da avaliação pessoal de seu usuário que pode atribuir valores diversos: rico, gordo, bêbado.

Estudos têm sido desenvolvidos através de pesquisas e experimentos, visando a mais próximas identificação do significado destas expressões ambíguas em contextos específicos e como podem variar os seus significados de acordo com a idade do entrevistado.

Resultados de um estudo prático

Cohen (1973) realizou um estudo que apurou, naturalmente, que os resultados dependem essencialmente do número de itens considerados. Pa muitos , “alguns amigos” significa 5, aproximadamente., ao passo que algumas árvores significa 20 itens, mais ou menos.

Áreas não relacionadas acusam valores paralelos. A linguagem parece significar a mesma coisa em previsões de tempo e política: a expressão

·              “É certo” -  ( ex. chover ou eleger-se) para o homem médio a probabilidade situa-se em
        torno de 70%, aproximadamente.

·              “Parece” -  probabilidade de 60%.

·              “Provavelmente” - probabilidade aproximada de 55%

Quantas são “algumas bolinhas” retiradas de uma bandeja ? Adaptação da figura original de Cohen, 1973

O tamanho da população dos elementos influi no valor atribuído a uma expressão. Se dizemos a algum indivíduo “tire um pouco de” ou “uma porção de” bolinhas de vidro de uma bandeja, ele tirará maior número se a bandeja contiver grande quantidade de bolinhas, do que uma quantidade pequena.

Esta quantidade não aumentará proporcionalmente se colocarmos oito vezes o número de bolinhas de vidro. O indivíduo retirará uma porcentagem equivalente à metade do aumento.

Verifica-se uma variação acentuada com a idade. Entre crianças de 8 a 14 anos de idade, quanto mais velha a criança, menor o número de bolinhas retirará. Mas a diferença entre “uma porção de” para “um pouco de” se amplia com a idade. Segundo Cohem (1973) este efeito é tão consistente que poderia ser utilizado como teste de inteligência, simplesmente pedindo ao indivíduo que forneça valores numéricos a expressões como “sempre” e “muito raramente” em determinado contexto e depois solicitar a mesma estimativa para “quase sempre” e “muito raramente”. Constatou-se que essa relação aumenta sistematicamente, de 2 para 1, para uma criança de sete anos e 20 para 1 para uma pessoa de 25 anos.

 A Probabilidade Subjetiva Aplicada ao Estudo do Crime

A probabilidade subjetiva também ocupa um lugar de destaque no estudo do crime. Certos tipos de criminosos podem diferir de seus vizinhos respeitadores da lei apenas por estarem mais convencidos de que não serão apanhados, Podem diferir somente no seu nível de aceitação de risco máximo, isto é, por estarem prontos a agir em um nível de incerteza de êxito que desencorajaria seus vizinhos. É possível relacionar a esperança subjetiva de lucro ou perda com os riscos efetivos de um empreendimento econômico. (Cohem, 1973).

Resumo

A subjetividade pode influenciar o julgamento do relator e produzir dados inexatos sobre circunstâncias que cercam um evento criminal. Figuras de Retórica podem induzir a falsos julgamentos, distorcendo intencionalmente ou incidentalmente fatos importantes, desviando a atenção do analista para outros de menor relevância no texto. Validade e precisão são características importantes associadas à produção de informações criminais, pelas seguintes razões:

·              Informações sobre históricos precisos permitem a identificação dos crimes efetivamente ocorridos, suas coordenadas geográficas e dados temporais,

·              São de grande utilidade para o  planejamento e orçamento policial.

·              Permitem o exame adequado de ocorrências correlatas, fornecendo dados úteis para pesquisa de padrões criminais

·              Fornecem subsídios para estabelecer diferenças entre o crime real e o crime relatado (Gottlieb, 1998).

Bibliografia

Isnard Martins. Históricos Criminais - Ergonomia de Conteúdo. UNESA, Notas Técnicas 2010

Isnard , Martins. PhotoComposerPlus - Software Retrato Falado - Rio de Janeiro, 2003

Reason, J, Human Error. Cambridge University Press, 1996

Cohen J. O Pensamento Matemático nas Ciências do Comportamento. Editora Renes, Rio de Janeiro, 1973

Gottlieb S, Sheldon Arenberg, & Raj Singh . Crime Analysis: From First Report To Final Arrest.  Alpha Publishing, 1998

 

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