Isnard
Martins - Prof Dr Engenharia Industrial - 2008
1 -
Registros de Informes Policiais
Boletins de
ocorrência policiais constituem-se em fonte primária para geração de
bases de informações criminais, refletindo as concentrações de delitos
distribuídos ao longo de um período considerado. Estas informações são
de grande utilidade como suporte ao planejamento policial preventivo e
apoio à ações táticas específicas.
As
ocorrências policiais também representam o elo principal entre o autor e
o delito cometido, o crime e suas particularidades, o autor e seus
comparsas, fornecendo continuamente informações essenciais à
investigação, inteligência e eventualmente, elemento de apoio à
atividade pericial.
As
bases de ocorrências criminais são alimentadas a partir dos boletins de
ocorrências, originado na central de atendimentos 190 ou outro
departamento disponível para registro pela policia ou população. As
denominadas Centrais de Despacho automatizadas podem manter o registro
da ocorrência em um formato e dotado de recursos sistêmicos
incorporados, onde a informação originada na chamado do setor 190,
evoluindo até o inquérito (Sistema Canadense Mobilair, Sistema de
despacho Israelense e outros). Outras fontes também podem colaborar e
incluir ocorrências, como aqueles gerados diretamente em postos e
delegacias policiais, departamentos de inteligência e até mesmo através
da Internet. No Rio de Janeiro participamos da implantação de uma
Delegacia Virtual no ano 2000, que permitia gerar de dados para
elaboração de um boletim de ocorrência. A Delegacia Virtual permite a
comunicação de delitos como perda de documentos, roubo e furto de
veículos e outras ocorrências de gravidade relativamente menor.
2 - Estrutura das informações fonte
Martins
(2009) cita que os documentos usados para transcrição dos registros
criminais devem permitir a captação livre da narrativa, não limitando o
seu conteúdo através da estruturação excessiva da fonte de transcrição,
perdendo-se, eventualmente, detalhes envolvidos. A essência destas
informações não pode ser sintetizada em registros estruturados sem perda
de significado (Xu e Chen, 2004). As bases de informações
desestruturadas são de difícil análise, ocultam conexões entre fatos,
objetos ou pessoas
Chen et al
(2004) descrevem que técnicas tradicionais de mineração de dados, como
análise associativa de padrões, clusterização, classificações de
agrupamentos e previsões estavam restritas à bases estruturadas de
dados. Presentemente técnicas de mineração de informações criminais
foram expandidas para bases estruturadas e desestruturadas de
informações.
Com a adoção
do computador como base da transcrição da narrativa no departamento
policial, alguns sistemas de registro do atendimento sofreram uma
tendência de sintetizar as declarações da ocorrência em campos de
entrada de dados em formulários eletrônicos. Sistemas de históricos
policiais estruturados ou semi-estruturados restringem os detalhes das
narrativas dos declarantes, impondo limitações de informações na
seqüência de entrada de dados, convertendo o boletim de ocorrência
policial em uma versão parcial dos fatos acontecidos.
A
desestruturação das informações, características de boletins de
ocorrências criminais, dificulta a identificação de atores mapeados,
reduz a nitidez das fronteiras dos cenários delineados, interpondo-se
como obstáculo para identificação de relacionamentos e confirmação de
cumplicidades, consistindo em fator de retardo na apuração de
responsabilidades (Xu e Chen, 2004). O fator tempo torna-se elemento
fundamental para esclarecimento da autoria.
Os históricos
policiais digitais podem ser classificados segundo a estrutura e
organização dos dados armazenados e da forma como são coletados na
origem. Estas categorias de armazenamento relacionam-se com o nível de
detalhamento de dados extraídos e das facilidades encontradas para
representação de um mapa de inteligência. A classificação dos dados
compreendem três possíveis categorias (Martins, 2009):
2.1.1
Desestruturados
- são informações diretamente coletadas nos boletins de ocorrência em
uma linguagem natural e característica do ambiente policial. Boletins
desestruturados apresentam narrativas ricas dos fatos, objetos e
instrumentos utilizados. Geralmente os documentos e arquivos de dados
textuais permitem declarações referentes à dinâmica do crime,
circunstâncias e envolvidos. Os dados coletados, devido à flexibilidade
oferecida para os relatos das ocorrências, propiciam a introdução de
erros, siglas, neologismos e abreviaturas desconhecidas (Martins, 2009):
2.1.2
Semi-estruturados
- são informações geralmente extraídas de outras bases digitais ou
coletas parcialmente no registro da ocorrência criminal. Apresentam
detalhes sintetizados da dinâmica do crime. A narrativa da ocorrência
encontra-se restrita pela natureza do veículo de transcrição usado para
captação do registro do delito criminal. Este tipo de estrutura oferece
como maior vantagem a rápida identificação de atores, objetos, datas e
localizações (Martins, 2009):.
2.1.3
Estruturados
- Segundo Nardi e David (1998), dados
estruturados são informações reconhecíveis pela gramática. Dados
estruturados são pobres para investigação de dinâmicas criminais.
Informações estruturadas são deficientes para descoberta de detalhes e
padrões da ação criminosa. Dados estruturados caracterizam-se por serem
de difícil visibilidade para descoberta de vínculos entre envolvidos,
além de permitem mais rápido acesso aos atores, instrumentos e datas
registrados (Martins, 2009)
3- Disseminação de Dados
Há dois
objetivos associados à disseminação de dados:
·
Gerar informações para apoio operacional
e tático
·
Disseminar conhecimento atualizado aos
profissionais internos e externos à Organização policial.
3.1 - Informes Diários
Os Informes Diários são usados para
disseminar informações sumárias sobre incidências criminais extraídas de
ocorrências registradas e prisões recentes. Estes informes podem incluir
mensagens de alerta, mensagens referentes à pessoas desaparecidas,
solicitações extraordinárias para reforço de patrulhamento e dados
eventualmente recebidos de outros departamentos sobre crimes e
suspeitos.
Gottlieb et
al (1994) alerta para precauções que devem ser tomadas na preparação e
conteúdo de um sistema de boletim diário (Impresso ou vídeo).
Atualização
Certificar-se
que as informações estejam atualizadas. Matérias antigas não devem ser
publicadas - policiais não apenas deixarão de lê-lo, como presumirão que
o boletim encontra-se atrasado ou desinformado.
Credibilidade.
O boletim
diário costuma ser usado como um repositório
de informações. Nada de errado, desde que esta publicação não
apresente dificuldades para ser manipulado pelos policiais, mantendo
sempre informações de interesse
Objetividade
Os policiais
não dispõem de tempo para pesquisas e busca de informações sobre crimes,
suspeitos e outros dados pertinentes. È importante que o boletim
mantenha permanente objetividade em seus informes e formato de exibição
de seus dados.
3.2 - Padrões
Criminais
O informe sobre padrões criminais e
crimes seriais descrevem ocorrências reincidentes em determinadas
atividades criminais.
Estes informes apresentam como objetivo
familiarizar o policial sobre tipos e padrões criminais em andamento.
Seu conteúdo procura evidenciar datas, horários e locais relacionados
com as ocorrências fornecendo informações sobre suspeitos e objetos,
tais como veículos utilizados (moto, carro, pick-up, etc) tipos de arma
(curta, longa, calibre, etc) e modus operandi para prática dos
crimes.. Os informes evidenciam ainda, o tipo do alvo atacado pelos
marginais na abordagem, bem como o tipo preferencial da vítima, idade,
tipo do imóvel ou circunstâncias que permitam facilidades para
materialização do delito
Recomenda-se
também a inclusão de resultados de antigas análises ou previsões
geográficas / temporais para cometimento de futuros crimes permitindo a
antecipação e possibilidade de prisão dos suspeitos antes do
encerramento do padrão ou série criminal. O máximo de informes
atualizados deve estar contido nesta base de ocorrências para permitir
que sejam criados planos de policiamento dirigido ou de ação tática.
Neste conjunto de informações deverão ser incluídas descrições objetivas
das ocorrências e mapas apresentando anteriores e futuros locais
previstos para as ocorrências, bem como gráficos que possam ampliar o
conhecimento sobre os problemas considerados.
3.3 - Diretório de
Delinqüentes
O diretórios de delinqüentes
identificados (DDI) são informes que visão manter os policiais
informados sobre os marginais conhecidos que estão em atividade ou
encontram-se em regime de prisão. A utilidade maior do DDI prende-se no
rastreamento dos movimentos de participantes de quadrilhas, pedófilos e
criminosos sexuais, narcotraficantes e outros. O DDI apresenta fotos
recentes dos criminosos, identificam seus veículos, áreas de atuação,
locais de residências, comparsas e familiares relacionados, resumo do
prontuário criminal e modus operandi conhecido . Figura 2 - apresenta um
Modelo de Informe Policial gerado com dados fictícios pelo Sistema
FotoCrim (Isnard Martins , 2003)
Os informes
sobre delinqüentes conhecidos devem ser distribuídos com cautela devido
a problemas relacionados com sigilo policiais (investigações em curso)
ou ainda devido a problemas relativos a privacidade.
Nos Estados
Unidos a legislação sobre privacidade protege o uso e a disseminação de
informações sobre históricos criminais. No caso fortuito de um boletim
recolhido de uma lata de lixo, por exemplo, ou utilizado por pessoas
erradas, um processo contra a polícia pode ser deflagrado (Gottlieb et
al, 1994).
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Figura 2-
Modelo de Informe Policial - dados Hipotéticos - Fonte Fotocrim
(2010) |
3.4 - Apenados em
Condicional
O Informe sobre apenados em regime
condicional (IPRC) tem uso similar ao diretórios de delinqüentes
identificados, servindo para informar os policiais sobre ex-prisioneiros
retornando ao convívio da comunidade.
O IPRC
apresenta fotos do delinqüente, bem como todas as informações
complementares pertinentes. Termos e condições especiais da condicional
também devem ser mencionados. A cautela na publicação e no uso desse
documento é igualmente aconselhada, pois contém informações delicadas
protegidas por lei (Gottlieb et al, 1994)..
O IPRC deve
ser atualizados sempre que indivíduos sejam libertados ou presos por
outro crime, ou ainda, circunstancialmente, face à alterações eventuais
verificadas nas condições de suas sentenças.
3.5 - Sumário Estatístico Semanal e Mensal
Os sumários estatísticos apresentam
resumos periódicos das ocorrências criminais, suas origens e
estatísticas relacionadas. Apresentam indicadores sobre as incidências e
percentuais sobre as variações relacionadas com o aumento ou redução dos
crimes em regiões pré-selecionadas para análise.
Geralmente são selecionados para esta
análise os homicídios, estupros, assaltos a pedestres, roubos a
estabelecimentos comerciais, roubo a residência e furtos e roubos de
veículos. Os dados contidos nestes relatórios também tornam-se muito
úteis para apoio contínuo ao planejamento policial preventivo baseado
nas informações estatísticas sobre datas, horário, localidades e
circunstâncias referentes ao padrão das ocorrências, incluindo o tipo da
quadrilha praticante, perfil da vítima e possíveis suspeitos envolvidos.
3.6 - Informe de Procurados
O informe de
indivíduos procurados é gerado tempestivamente, de acordo com a
necessidade de atualização de seu conteúdo dinâmico. Este informe
apresenta um ou mais indivíduos procurados, descrição física, tipo de
delito envolvido e, eventualmente, mensagem relacionada com o procurado
(“ cuidado, indivíduo perigoso”, “armado” , modus operandi, etc). Na
ausência de uma foto (ainda não preso e identificado) pode ser
apresentado um retrato falado (Figura 3) do suspeito, que descreve a
razão da busca no próprio informe e mensagem eventual complementar
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A polícia Civil de Alagoas prendeu Luís Daniel Correira da Costa,
24 anos, conhecido como o Tarado da Moto. Daniel é acusado de
praticar vários estupros na região da Gruta, Murilópolis, Novo
Mundo e Serraria. Segundo as vítimas, ele usava uma moto de cor
verde para seguir e atacar as suas vítimas -
Fonte
- Primeira Edição, Maceió - 6/12/2007 |
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Figura 3 -
Retrato falado do Suspeito, preso após a sua divulgação
- Programa Photo Composer Plus, Brasil |
3.7 - Informes especiais
sobre Quadrilhas e Delitos
Os Informes Especiais sobre Quadrilhas /
Drogas / Delitos são gerados para uso restrito pelo pessoal de
inteligência, sendo usados para investigações e operações especiais..
Podem ser utilizados para produzir conhecimento sobre membros de
quadrilhas, interceptação de comunicações, análise de operações
praticadas por grandes traficantes de drogas, sonegação fiscal ou
lavagem de dinheiro.
Por ser um informe “especial”, o seu
conteúdo deve ser considerado como de caráter reservado. Se publicado em
ambiente externo ao originalmente reservado à investigação, os informes
especiais podem perder seu real impacto e finalidade.
4- Bibliografia
CHEN
H.,
K.J. Lynch, Automatic construction of networks of concepts
characterizing document databases, IEEE Transactions on Systems, Man and
Cybernetics 22 (5) (1992) 885– 902.
Gottlieb et al
S, Arenberg
S., & Singh R
Criminal Intelligence
Analysis/.
Crime Analysis:
From First Report To Final Arrest. Alpha Group
- 1994
Jonathan
J. Corcoran, Ian D. Wilson, J. Andrew Ware.
Predicting the geo-temporal variations of crime and disorder.
School of Computing, University of Glamorgan, Pontypridd, Mid
Glamorgan, CF37 1DL, UK, 2003
Martins
Isnard. Exame de Qualificação de Doutorado. PUC-Rio,
Departamento de Engenharia Industrial, 2009
FOTOCRIM - Isnard T. Martins
SSP-Rio 2002
NARDI A. ;
David J. Wright.
Collaborative, programmable intelligent agents.
Volume 41 , Issue 3 .
Pages: 96 - 104. 1998 ,
ISSN:0001-0782
PhotoComposerPlus.
Isnard Martins. consulta em http://www.citynet.com.br/retratofalado
XU
Jennifer,
Chen H., Fighting organized crimes: using shortest-path
algorithms to identify associations in criminal networks .
Decision Support System 38 (2004) 473-487